17.8.10

Abril, 03, 2010

Querida ______


Eu nunca vi céu tão grande. Agora, estou exatamente num último ponto, um monolito, um fim de península que encontrei através de trilhas, cinco metros acima do mar. Essa imensidão do horizonte diminui todos os nossos probleminhas mundanos e comuns, o vento salgado limpa o egoísmo que se acumula tanto em nós, na nossa terra de concreto. Cheguei à pouco nessa pedra, um altar gigante e natural, vim seguindo o barulho da água, que agora explode logo abaixo dessa carta que provavelmente nunca vou te entregar. Além da geologia e dos pássaros escandalosos, ninguém por perto. Somente essa liberdade pura tão convenientemente ligada à solidão. O mundo dá tantas voltas que é indispensável fugir, antes da tontura e da queda. Na pousada onde estou, uma senhora organizada, germânica, me recebe sistematicamente. Uma cama grande, dois travesseiros só meus, sono, um lençol mais distante e perdido que a nossa história. Depois fumar um cigarro de madrugada sentado na areia azul de lua, observar o absurdo tumulto das ondas, a companhia dos cães: mudanças rápidas, os finados romances, a vida imensa, deserto, ilhas.

14.7.10

v. 2

Embora eu acredite na Dopamina
Serotonina
Norepinefrina

Essa coisa de (...)
Continua sendo sempre saudade
Continua sendo sempre ruína

.

"(..) Nossos corpos entregues a um êxtase canibal
Nossos corpos percorrendo os labirintos do prazer e suas alamedas ladeadas por tufos de azaléia elétrica
Nossos corpos de bruma, mapa de penugens, texto sânscrito
Nossos corpos pisoteando o braseiro da memória dançando animados por um batuque que sai do centro da terra
Nossos corpos mergulhando na água transparente de um lago gelado no desvão de uma gruta calcária
Nossos corpos embarcando em uma nave especial feita de palha trançada
Nossos corpos investidos de seus plenos poderes, salvo-condutos para qualquer viagem, licença para voar, passaporte para o delírio.(...)"

.

Eu te vejo castanha, vermelha e bege, escorrida em doce, esse caramelo pingado dos dedos, manchando o chão que tateio em rastros saborosos e anônimos, que permissão seria essa de ter o gosto na fonte, lambuzar-se em uma satisfação suja e egoísta e voluptosa até o fim tão distante e dispensável.
Mas passa.

Quero sangue, escarlate, rubi, rosas calcinadas nessas brasas que não aceitam discrição. Saciar, saciá-las, saciar-te. No alinhamento de marte e das estrelas jovens, descansado, aceitar a eternidade, depois de te consumir. Depois, sorver os restos, derramar-te o pudor gota a gota, esvaziar-te em carne e espírito.

Passa e já foi escrito, previsível, em qualquer bifurcação do tempo, no espaço, serei parte e não forma, entre as centenas difusas de nomes agremiados na sua memória.
Mas em mim, no que me guardar, até que a química que te desenha tão bem hoje esvaneça e jogue-te inteira no limbo dos sentidos, um pedaço da sua alma alheia se prenderá à minha, independentes e incontestáveis, na dimensão perdida, depois de nós.

12.4.10

Façanhas - Arrigo Barnabé

Agora eu vou dizer
O que
Não quero prá você

E você vai ouvir
E vai me obedecer

Não quero mais você
Jogada por esses botecos,
Nos braços desses malandros,
Na pinga desses marrecos,
Cantando, sorrindo, chorando...

Não quero saber de você
No meio de bocas
Estranhas,
Nessa lama de mente moderna
De artifícios,
De artimanhas

Transando as mais novas façanhas, não!
Não posso e nem vou permitir
Que se esqueça na última conta,
No último bar,
No último ir.

5.1.10

.

Separar-se é ter a residência invadida.
Conferir peças na sala, armário,
carteira, com pouca noção exata
do que foi embora.
Olhar desconfiado
aos objetos que viram
e nada dizem.

Separar-se, uma porta
arrombada por dentro.



fabrício carpinejar
("Cinco Marias", Bertrand Brasil, 2004)
(via Camila)

21.6.09

Back in Black

(...) e é como a condição "moto-perpetuo" se apresentasse aplicada a um amebiático esférico, esse sendo de estrutura viva de si, autômata, alimentada pela entrada de energia vinda de seus impulsos, igualmente alimentados pela energia diretamente inversa, originada dos cílios e das pulsações da forma supracitada, presupondo graficamente, o rosto do tempo.

13.10.08

conclusão.

O comportamento atual da espécie, apesar da dúvida causada pelo "orgulho" cultural, não sofreu alterações de sua condição original, essencialmente, de criatura coletiva. E é justamente o peso de sobreviver em meio à ordem e aos padrões naturalmente impostos, mesmo que variados, dentro de um grupo de indíviduos acidentalmente - em relação a tempo/espaço - unidos em suas situações repetidas, previsíveis e convencionadas na localidade e época em que se encontram, que traz à superficie de suas peles e bocas, as atitudes primatas e oportunistas de suas origens. 
Em sua essência, as pessoas se aproximam umas das outras por interesses, (embora estes se tornem proporcionalmente mais diversificados na medida em que a cultura natal evolua economicamente) podendo ser resumidos em duas categorias básicas:
Conforto e Saciedade.
Assim como os cães.
Divertir-se, descansar, saciar o estômago e o sexo. Qualquer condição individual exterior que negue alguma distribuição, ou concessão particular de conforto financeiro, estético/sexual ou hierárquico (e a hierarquia, como a dos cães, também é alcançada através da ameaça visual de violência física, de si ou por terceiros) é automaticamente repugnada e marginalizada pelos indivíduos essencialmente primitivos e maioritários da espécie. O ego, suposto diferenciador da humanidade dos outros seres que desfrutam do mesmo ciclo vital, responde pela comunicação dos interesses a serem e/ou já alcançados. Os cães, como característica superior, não latem para ostentar suas rações, ou suas coleiras para outros cães. Resta aos que nadam nas margens das aparências, acumular-se nas curvas,  tatear outros filhos dos desvios,  e aguardar serenamente o afago da evolução.

31.5.08

..

Felizes os que acreditam em vitórias, os que querem ganhar e sonham com vantagens, e são, por toda curta existência, plenos combatentes das colméias. Que nunca, nunca se questionarão sobre a inutilidade da luta, nem se perguntarão o que é vitória e o que é derrota. Sempre adiante. Mais. Além. Tentando passar, comer antes, chegar primeiro. Não se cogita de quê, ou quem. Felizes, assim, pulmões plenos de ar, umbigos apontando o céu, os auto-suficientes e seguros de si descem lentamente um rio sujo que o olho desvia, sem esperar a queda livre junto à foz. Quem sabe, o corpo vire e no fim sem volta nem escolhas toda a verdade surja, imunda, no último instante que de tão rápido, nunca será dito nem conhecido. E que talvez conserve o segredo solitário e eterno, feito o fim.

A sensação de deter a verdade, naturalmente ilusória é, para os poucos que a têm antes, o pecado da compreensão do nada, a percepção lúcida da completa falta de razões e sentidos. A inveja dos cães, dos símios, dos vermes, da simplicidade dos seus pensamentos, sem o peso de poder analisar o passado, nem a angustia de imaginar o futuro, completos em estômago, genitália e fezes, assim como os humanos seguros e vencedores, é como o desespero de um afogamento, afogar-se sem parar, sempre, sem poder morrer.